Visão Carnal

Sérgio Franco

É muito comum nos queixarmos e acusarmos alguns irmãos de impedir o nosso crescimento, de estorvar a nossa frutificação e progresso.

A crença de que a culpa está do lado de fora do barco aumenta muito quando ouvimos alguns pregadores que, desejando ser mestres, fazem “ousadas asseverações” afirmando que “os pessimistas” precisam ser cortados e lançados ao mar. “Gente negativa não pode ter espaço na nossa agenda e muito menos na nossa vida”, ensinam os tais.

Mas o que acontece quando os obstáculos (os pessimistas) são removidos e a estagnação ainda persiste? O que pensar quando “os fracos e desanimados” são expurgados do nosso convívio, mas a esterilidade permanece? O que fazer quando “os doentes e pecadores” são deixados para trás mas o deserto não chega ao fim?

É nesta hora que perguntamos: “Afinal, o que está errado? Seria a nossa cosmovisão?”.

Se Deus dá graça aos humildes e resiste aos soberbos, creio que seria uma boa hora para avaliarmos se a culpa é realmente de uma outra pessoa.

Não seria sábio considerarmos que o problema pode estar em nós?

Geralmente, quando não prosperamos no caminho, somos tentados a buscar os responsáveis e culpados fora do nosso barco. Entretanto, ao olharmos para as Escrituras, percebemos que, de fato, NINGUÉM pode impedir o nosso progresso quando o SENHOR está do nosso lado.

Nós somos aqueles que creem que “agindo Deus ninguém pode impedir” (Is 43:13).

Nós até cantamos que “quando Deus é por nós, ninguém poderá prevalecer contra nós” (Romanos 8:31).

Logo, se afirmarmos que o homem pode obstacular o nosso caminho, estamos sendo incoerentes com a nossa fé. Isso é uma evidência de que estamos olhando com os olhos carnais e não espirituais. Estamos vendo segundo a mentira do mundo e não de acordo com a Verdade de Deus.

Ser guiados pela carne não é bênção! Ela não é confiável e nela não há proveito algum. Nem a nossa carne e nem a de ninguém está livre da sentença do Deus Verdadeiro: Maldito o homem que se estriba, se apoia na carne, diz o Senhor (Jr 17:1).

Uma “visão carnal” só cogita das coisas dos homens e, por não ver com os olhos de Deus, está completamente impedida de compreender às coisas do alto.

Este guia cego chamado carne nos faz tropeçar por duas razões fundamentais: A primeira, por não discernir entre o bem e o mal, o santo e o profano, o certo e o errado. Assim sendo, os valores de Deus são trocados pelos valores do mundo e por consequência não é possível alcançar o verdadeiro sucesso, segundo a ótica Divina.

Um bom exemplo do que estou falando é a igreja de Laodicéia, ela disse: ‘Sou rico e próspero, não preciso de coisa alguma’. E Jesus rebateu:  “Não percebe que é infeliz, miserável, pobre, cego e está nu” (Apocalipse 3:17).

Uma visão equivocada dos valores de Deus é uma tragédia que promove juízo:

“Que aflição espera os que chamam
o mal de bem e o bem de mal,
a escuridão de luz e a luz de escuridão,
o amargo de doce e o doce de amargo!”
 (Isaías 5:20 – NVT)

A segunda razão para tropeçarmos é a queixa, pois quando não vemos a mão de Deus, nós murmuramos contra os homens. A carne não louva (linguagem do reino), ela só sabe murmurar (linguagem das trevas desse mundo).

A visão carnal nos impede de ver o que de fato está impedindo o nosso desenvolvimento.

O humanismo nos faz pensar que a âncora que nos freia está sempre do lado de fora do nosso coração. Contudo, em alguns casos, a âncora é a “própria mão de Deus”, pois Ele resiste aos soberbos e dá graça aos humildes.

Davi considerou esta possibilidade quando Absai queria matar Simei: “O Senhor preside esta situação, fica na sua!” (paráfrase minha – II Samuel 16:9-12).

Não enxergar esta verdade nos faz culpar os outros por nossa falta de crescimento e frutificação. Queixar-se contra os irmãos é perigoso, mesmo quando eles são pessimistas e negativos:

“Irmãos, não vos queixeis uns dos outros, para não serdes julgados. Eis que o juiz está às portas.” (Tiago 5:9)

Na verdade é a nossa rebelião que nos prende ao deserto, pois “…só os rebeldes habitam em terra estéril.” (Salmo 68:6)

Você acredita realmente que existe gente tóxica, pessimista, negativa que precisa ser deixada para trás, que precisa sair da sua vida?

Alguém me chamou atenção: “mas Franco, Paulo ensinou a igreja a não se sentar e nem comer com gente que se diz irmão e anda como incrédulo… Isso não é cortar a âncora?”

NÃO! O motivo e o propósito são outros. O motivo é o amor e por isso o propósito é ganhar.

A disciplina ensinada por Paulo se fundamenta no amor, ou seja, o motivo é o próximo e não eu. “O amor não busca o seu próprio interesse” (1 Cor 13). Quando fazemos algo aparentemente duro contra alguém, não o fazemos pensando em nós, mas na pessoa.

O propósito também é outro. Quando deixo a comunhão com alguns que se dizem irmãos e andam na prática do pecado, o objetivo é ganhar tais pessoas. Podemos até entregar alguém ao diabo, mas se o corpo é destruído, o corpo é ganho no dia do Senhor (II Coríntios 5).

Finalmente, contrariando a todos nós, Deus pode usar um Judas Iscariotes, Herodes, Pilatos, judeus e gentios para nos empurrar para o centro da Sua vontade:

“De fato, isso aconteceu aqui, nesta cidade, pois Herodes Antipas, o governador Pôncio Pilatos, os gentios e o povo de Israel se uniram contra Jesus, teu santo Servo, a quem ungiste. Tudo que fizeram, porém, havia sido decidido de antemão pela tua vontade” (Atos 4:27-28 – NVT).

Espero que os meus filhinhos amados me ouçam!

Sérgio Franco – Servo Livre