Jamê Nobre

Deus está nos chamando para algo muito grande. Não me refiro somente ao crescimento numérico da congregação, mas em conhecermos mais ao Senhor, sermos mais obedientes a Ele, mais comprometidos com a Sua Palavra e Pessoa. Eu quero fazer parte desses que, como arautos, estão anunciando esse caminho para a nossa congregação.

No mês de dezembro, o irmão Abnério trouxe-nos uma palavra citando o texto de Atos 2.42 e chamando os quatro pontos ali descritos de “pilares” da nossa congregação: “…e perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações”. Então, nos dispusemos a ouvir a Deus e falar da parte Dele para a igreja sobre esse tema.

Tivemos muitos antepassados que nos legaram um caminho e uma palavra e, por causa desse legado, também precisamos ser fiéis para passar adiante aquilo que Deus tem nos dado, como diz o Salmos 78:

Escutai o meu ensino, povo meu; inclinai os vossos ouvidos às palavras da minha boca. Abrirei a minha boca numa parábola; proporei enigmas da antiguidade, coisas que temos ouvido e sabido, e que nossos pais nos têm contado. Não os encobriremos aos seus filhos, cantaremos às gerações vindouras os louvores do Senhor, assim como a sua força e as maravilhas que tem feito. Porque ele estabeleceu um testemunho em Jacó, e instituiu uma lei em Israel, as quais coisas ordenou aos nossos pais que as ensinassem a seus filhos; para que as soubesse a geração vindoura, os filhos que houvesse de nascer, os quais se levantassem e as contassem a seus filhos, a fim de que pusessem em Deus a sua esperança, e não se esquecessem das obras de Deus, mas guardassem os seus mandamentos; e que não fossem como seus pais, geração contumaz e rebelde, geração de coração instável, cujo espírito não foi fiel para com Deus. (vs. 1-8)

Tanto Moisés quanto Paulo, ao iniciar seus ministérios, fizeram perguntas ao Senhor. Essas perguntas tinham a mesma essência e diziam respeito a quem Deus era: “Quem foi que me enviou?” e “Quem és Tu, Senhor?”. Nas duas vezes o Senhor responde falando do Seu caráter e da Sua natureza.

Para Moisés, Deus lhe dá uma resposta aparentemente simples e superficial: “EU SOU me enviou a vós” (Ex 3.14). Assim, ele segue o seu ministério em cima de uma identidade do Deus que É DEUS, do Deus Todo-Poderoso. Para Paulo, Deus lhe responde: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues” (At 9.5). Baseados nessas duas respostas, que na verdade são uma só, eles partem para fazer a obra de Deus, para realizar o ministério para o qual Ele os havia chamado.

Meu propósito nessa palavra é tentar colocar uma base, uma identidade, um rumo ou caminhada para as nossas vidas bem dentro do que Jeremias fala:

Põe-te marcos, faze postes que te guiem; dirige a tua atenção à estrada, ao caminho pelo qual foste; regressa, ó virgem de Israel, regressa a estas tuas cidades. (Jr 31.21)

Ou seja, o Senhor nos manda fincar postes e colocar marcos nas nossas vidas. São marcos laterais, que não nos deixam desviar, mas também marcos de distâncias que dizem o quanto já caminhamos e quanto falta para chegar, para que em tempo algum andemos à deriva, pois precisamos de rumos.

O texto que temos tomado por base, Atos 2.42, coloca quatro pilares sobre os quais devemos embasar nossas vidas: (1) a doutrina dos apóstolos, (2) a comunhão, (3) o partir do pão e (4) as orações. Mas eu chamo a atenção para a palavra “perseverar”, que deve ser uma característica de todo aquele que segue a Deus. No entanto, não é uma perseverança qualquer, pois, estudando as Escrituras, vemos que muitos foram perseverantes em fazer o mal; o fizeram com “capricho”, como se fosse seu ministério, seu chamado. Assim, não basta perseverar, mas temos de saber “em que” e “onde” perseverar.

Sabemos que a segunda carta de Lucas a Teófilo (o livro de Atos) não é uma carta doutrinária, mas ela nos dá dicas de como devemos andar, tendo por modelo os apóstolos e discípulos de Jesus – como eles se comportavam, agiam, caminhavam. Assim, os acontecimentos do livro de Atos são postes e marcos que podemos colocar em nossas vidas. Portanto, podemos usar esse texto para servir de postes e marcos para nós hoje.

O que significa a palavra “perseverar”? O Salmos 78.8, acima, fala de uma geração de coração inconstante. É fato que somos um povo de muitas iniciativas: com boas intenções estabelecemos alvos e projetos, prometemos fazer muitas coisas, mas, infelizmente, poucos conseguem terminar o que começam. Recentemente começamos um projeto de leitura da Bíblia em 10 meses. Você pode ler a Bíblia como quiser, mas a ler com disciplina é bom para o seu caráter.

Ouvi recentemente uma professora dizer que para acontecer uma mudança de hábitos é necessário fazer o que determinamos por, no mínimo, 21 dias. Disse que esse tempo é um marco que faz com que a nossa memória e coração vejam isso como algo necessário e, quando não o fizermos, sentiremos falta. São 21 dias lendo a Bíblia ou fazendo qualquer outra coisa a que nos dispomos para poder tirar um hábito velho e criar um novo.

Tiago diz que se alguém pede algo a Deus mas supõe que não irá receber, tem um ânimo dobre e é inconstante em seus caminhos (1.6-8). No capítulo 5.10,11 ele diz:

“Irmãos, tomai por modelo no sofrimento e na paciência os profetas, os quais falaram em nome do Senhor. Eis que temos por felizes os que perseveraram firmes. Tendes ouvido da paciência de Jó e vistes que fim o Senhor lhe deu; porque o Senhor é cheio de terna misericórdia e compassivo.”

Uma das características do perseverante é a paciência. No entanto, vivemos no século da impaciência. Achamos que as coisas com Deus são na base do “pedir e já receber”, mas não é assim. Deus trabalha com o nosso caráter aparentemente ‘atrasando’ a resposta de algumas orações, mas Ele não atrasa. Embora parece tardio, Ele responde depressa. A única coisa que nos ensina a sermos pacientes é a tribulação, então, se estamos orando por paciência vamos acolher as tribulações, pois elas são as respostas de Deus.

Quando Davi recebeu de Deus as promessas sobre seu filho Salomão, Este lhe disse:

Estabelecerei o seu reino para sempre, se perseverar ele em cumprir os meus mandamentos e os meus juízos, como até ao dia de hoje. (1 Cr 28.7)

O perseverar sempre está conectado a alguma coisa e, no caso acima, perseverar nos mandamentos e nos juízos do Senhor.

Sereis odiados de todos por causa do meu nome; aquele, porém, que perseverar até ao fim, esse será salvo. (Mt 10.22)

Nesse caso é perseverar nos caminhos e na Palavra do Senhor Jesus.

Despedida a sinagoga, muitos dos judeus e dos prosélitos piedosos seguiram Paulo e Barnabé, e estes, falando-lhes, os persuadiam a perseverar na graça de Deus. (At 13.43)

Perseverar significa insistir, permanecer, manter-se com fidelidade, ser constante, ser diligente em tudo o que aprende, ter um alvo e nele fixar os olhos. Os discípulos “insistiam” na doutrina dos apóstolos, ou seja, eles não queriam uma outra doutrina, não desejavam outro ensinamento senão aquele que os apóstolos ensinavam.

Eles também “insistiam” na comunhão. Eu estava em uma cidade e, conversando com um dos líderes da igreja, ele contou-me que tinha uma rixa com outro líder. Sugeri que ele fosse visitar aquele irmão. Quando lá voltei, perguntei-lhe se ele havia feito isso, ao que me respondeu: “Eu fui, mas ele não me recebeu. Agora é com Deus!” Ora, será que isso é insistir na comunhão? Com certeza não!

E se, ao invés de “insistir”, usarmos a frase “manter fiel”? Manter-se fiel na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações! Eu entendo que perseverança e fidelidade são extremamente próximas. Quando Samuel estava falando com o povo sobre o erro que haviam cometido ao escolher Saul como rei, o Senhor lhes disse:

Tão-somente, pois, temei ao Senhor e servi-o fielmente de todo o vosso coração; pois vede quão grandiosas coisas vos fez. Se, porém, perseverardes em fazer o mal, perecereis, tanto vós como o vosso rei. (1 Sm 12.24,25)

Quanto tempo durou a perseverança de Noé? Aproximadamente 100 anos! Ora, construir uma Arca durante 100 anos em cima de uma palavra de Deus a respeito de algo coisa que Noé não conhecia (chuva) parece loucura! Normalmente queremos ser perseverantes apenas em cima de coisas que vemos, mas o chamado das Escrituras é para perseverarmos nas coisas que não vemos, pois a “fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem” (Hb 11.1). Precisamos ser fiéis e perseverantes em cima de algo que Deus falou, ainda que não a vejamos.

O capítulo 11 aos Hebreus fala sobre isso: pessoas que perseveraram, que viram uma cidade, uma nova terra pela fé. O verso 13 diz: “Todos estes morreram na fé, sem ter obtido as promessas; vendo-as, porém, de longe, e saudando-as, e confessando que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra.” O capítulo também cita Noé: um homem que via toda uma geração morrendo ao seu lado mas permanecia fiel. Quanto tempo dura a nossa perseverança? O que precisamos para ser perseverantes? O que é que mata a nossa perseverança? “Ah, eu orei 2 semanas e não aconteceu, então acho que não é de Deus”. Nós espiritualizamos a preguiça e a impaciência!

Muitos anos atrás eu cheguei em Belém (PA) e meu pai me havia pedido que eu visitasse uma pessoa que era seu amigo de juventude. Ao encontrá-lo, disse: “Meu pai pediu que eu lhe agradecesse pelo tanto que o senhor orou por ele!” Ele respondeu: “Eu orei 18 anos pela conversão do seu pai!” Isso é uma perseverança baseada no amor – foi o amor que o levou a perseverar nessa oração por meu pai. É por isso que a perseverança não caminha sozinha, mas está sempre conectada a alguma coisa.

Calebe é outro modelo de perseverança. Aos 40 anos ele ouviu uma promessa de Deus pela boca de Moisés. Continuou caminhando e lutando por mais 45 anos e, aos 85, chegou para Josué e repetiu-lhe palavra por palavra aquilo que havia ouvido naquela ocasião:

Chegaram os filhos de Judá a Josué em Gilgal; e Calebe, filho de Jefoné, o quenezeu, lhe disse: Tu sabes o que o SENHOR falou a Moisés, homem de Deus, em Cades-Barnéia, a respeito de mim e de ti. Tinha eu quarenta anos quando Moisés, servo do SENHOR, me enviou de Cades-Barnéia para espiar a terra; e eu lhe relatei como sentia no coração. Mas meus irmãos que subiram comigo desesperaram o povo; eu, porém, perseverei em seguir o SENHOR, meu Deus. Então, Moisés, naquele dia, jurou, dizendo: Certamente, a terra em que puseste o pé será tua e de teus filhos, em herança perpetuamente, pois perseveraste em seguir o SENHOR, meu Deus. Eis, agora, o SENHOR me conservou em vida, como prometeu; quarenta e cinco anos há desde que o SENHOR falou esta palavra a Moisés, andando Israel ainda no deserto; e, já agora, sou de oitenta e cinco anos. Estou forte ainda hoje como no dia em que Moisés me enviou; qual era a minha força naquele dia, tal ainda agora para o combate, tanto para sair a ele como para voltar. Agora, pois, dá-me este monte de que o SENHOR falou naquele dia, pois, naquele dia, ouviste que lá estavam os anaquins e grandes e fortes cidades; o SENHOR, porventura, será comigo, para os desapossar, como prometeu. Josué o abençoou e deu a Calebe, filho de Jefoné, Hebrom em herança. (Js 14.6-13)

Jesus disse que “é na vossa perseverança que ganhareis a vossa alma” (Lc 21.19). Ora, aos 85 anos, ao invés de estar pensando em sua morte, Calebe estava recomeçando sua vida com disposição de derrotar os inimigos e tomar posse da terra que Deus lhe havia prometido.

Anos atrás eu encontrei um “Calebe”. Eu estava em uma cidade nos Andes, a 3.800 metros de altitude, e lá havia um missionário sueco de 82 anos. Ele estava preparando um acampamento muito precário, mas fazendo paredes, bancos, camas etc. Era viúvo e havia se casado há pouco tempo com uma mulher de aproximadamente 50 anos, tendo dirigido por quase 1000 quilômetros ao norte do Peru em lua de mel. O nome que eu dei a ele foi Calebe!

Abraão é outro exemplo de perseverança. Um fato que me chama a atenção está em Gênesis 15, quando Deus começa a conversar com ele sobre seu futuro e descendência, sendo que ele ainda não tinha filhos. Mas a Palavra diz que “ele creu no Senhor, e isso lhe foi imputado para justiça” (v.6). Como forma de aliança com Deus, ele matou alguns animais para oferecer em sacrifício ao Senhor e, durante todo o dia, aves de rapina desciam para comer os cadáveres, mas ele com seu cajado as espantava (vs.9-11). Quando fazemos promessas ao Senhor as aves de rapina tentam comê-las – aves de incredulidade, aves que dizem que devemos ver para crer. Por isso precisamos ter um cajado, que é a palavra da fé, para espantá-las. Nós cremos e por isso veremos! Isso é perseverança!

Ninguém, em todas as áreas das atividades humanas, venceu sem perseverança. Os cientistas, nas descobertas da área da saúde, lutaram e foram perseverantes. Os grandes inventores e descobridores também. A história de Cristóvão Colombo é diferente da que comumente ouvimos. Ele era um homem cheio do Espírito Santo e Deus lhe revelou que havia um povo do outro lado do mar para quem ele deveria pregar o evangelho; então ele foi. Ainda que todas as coisas lhe fossem contrárias ele permaneceu firme. Chegou um determinado momento em que os marinheiros queriam matá-lo, jogá-lo no mar. Então ele orou ao Senhor e pediu a eles que lhe dessem mais três dias. Ora, não havia satélite, GPS, referência humana alguma que justificasse esses dias de prazo. Mas ao terceiro dia ele viu a terra! Assim, em todas as áreas precisamos de perseverança!

Mas perseverar em que, de acordo com o texto que estamos vendo? Primeiro, na doutrina dos apóstolos! O que é essa doutrina? Não pense em um grande compêndio teológico, pois é algo muito mais simples do que isso. João descreveu o que é essa doutrina:

O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos, e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da vida (e a vida se manifestou, e nós a temos visto, e dela damos testemunho, e vo-la anunciamos, a vida eterna, a qual estava com o Pai e nos foi manifestada), o que temos visto e ouvido anunciamos também a vós outros, para que vós, igualmente, mantenhais comunhão conosco. Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo. (1 Jo 1.1-3)

Ou seja, a doutrina dos apóstolos está relacionada tão somente à pessoa do Senhor Jesus Cristo. Eles não anunciavam uma doutrina, mas uma pessoa: Jesus! Se analisarmos os sermões do livro de Atos veremos como eles colocavam o Senhor Jesus como o ponto de referência. Doutrinas e teologias apenas nos dividem, mas Jesus nos junta. É ele quem devemos anunciar.

Devemos também perseverar na comunhão. Comunhão é a capacidade de tornar comum a outros um bem que é meu, é tomar a dor dos outros e fazê-la comum em minha vida. Ter comunhão na dor, na aflição, na luta, nas privações, nas provações e também na alegria e no gozo. Devemos insistir nessas coisas!

Terceiro, perseverar no partir do pão. O texto não diz que eles perseveravam em “comer o pão”, mas em “partir o pão”. A perseverança deles não estava no receber, mas no dar, no repartir. Eles se doavam e insistiam nisso todos os dias. O que o mundo ensina é que temos de cuidar de nós mesmos e, SE der tempo, pensar nos outros. Mas onde fica o mandamento do Senhor de “chorar com os que choram e alegrar com os que se alegram” (Rm 12.15)?

Vivemos em um século onde a saudação aos outros ficou extremamente curta: “Como está?”, com a esperança de que a pessoa não responda, pois, se o fizer, ficaremos comprometidos com ela. Então é melhor dizer “oi”, “tchau”, virar as costas e ir embora. Será que não deveríamos aprender a dizer: “Meu irmão, está tudo bem com você?”. Precisamos aprender a ouvir nossos irmãos, fazer deles nossos ouvidos e corações. Comunhão não é participar de uma reunião, mas participar da vida das pessoas; insistir na comunhão, no partir do pão, no dar o que temos e até o que eu não temos.

Em Mateus 14, quando Jesus estava com uma grande multidão, os discípulos lhe disseram: “O lugar é deserto, e vai adiantada a hora; despede, pois, as multidões para que, indo pelas aldeias, comprem para si o que comer” (v.15). Eu entendo essa sugestão como uma forma deles se descartarem de uma responsabilidade. A primeira observação que fazem é que o lugar era deserto. Ora, se era deserto, com certeza não havia possibilidade de se comprar qualquer coisa. Mas a “brilhante” ideia dos discípulos é que Jesus despedisse a multidão para ir comprar comida. No entanto, Jesus lhes respondeu: “Não precisam retirar-se; dai-lhes, vós mesmos, de comer” (v.16).

Será que o fato de não gostarmos de saber notícias dos irmãos é apenas porque não queremos ajudá-los? Será que estamos dispostos a pegar o telefone, ligar para um irmão e, com toda a pureza de coração, com toda boa vontade perguntar-lhe: “Como você está? Eu quero lhe ouvir!” Mas não pense em você como aquele que precisa ser ouvido e, sim, como aquele que precisa ouvir. Nossa tendência é sempre pensar como vítimas: “Eu sou o necessitado! Ninguém me liga, visita, atende, compreende!” Há uma oração de Francisco de Assis que diz: “…fazei que eu procure mais consolar que ser consolado; compreender, que ser compreendido; amar, que ser amado”.

Partir o pão significa repartir o que temos e, mais do que isso, repartir o que somos; colocar a nós mesmos à disposição dos irmãos. É verdade que a Ceia é uma aplicação prática desse ato. A igreja partia o pão, em termos de celebração da Ceia, nas casas dos irmãos. No entanto, ela aponta para um repartir maior. Jesus, na cruz, repartiu sua vida conosco. O que mais lembra a Ceia, senão a morte de Cristo na cruz? O que mais lembra o partir do pão natural, senão Jesus se dando como o pão da vida?

A celebração da Ceia é um símbolo de ciclos que se repetem em nossas vidas. Ali proclamamos o término de um ciclo e o começo de um novo. Ela renova nossa esperança e nossa visão em Deus, revela a identidade do Senhor e a nossa identidade com ele. Foi durante a Ceia que, após receber o pão de Jesus, Judas foi tomado pelo Diabo (Jo 13.26,27). A Ceia revela quem somos, nossas mais ocultas intenções, a verdade do nosso coração. Por isso ela não é um mero ritual, mas a manifestação da vida de Deus e deveríamos tê-la como o momento mais sublime da vida da congregação.

Em Lucas 24, quando alguns discípulos desciam de Jerusalém para Emaús, Jesus se aproximou deles perguntando: “Que é isso que vos preocupa e de que ides tratando à medida que caminhais?” (v.17). Eles responderam: “És o único, porventura, que, tendo estado em Jerusalém, ignoras as ocorrências destes últimos dias?” (v.18). Então, eles tentaram relatar para Jesus o que havia acontecido com o próprio Jesus (vs.19-24). A princípio ele os repreendeu, mas depois passou a explicar-lhes o que verdadeiramente havia acontecido (vs.25-27).

Quando chegaram à cidade, Jesus fez menção de ir embora, mas ansioso por ser convidado para comer com eles (vs.28,29). Ele tinha ansiedade por comunhão! O mesmo que disse que não devemos andar ansiosos por coisa alguma também disse que ansiou por comer a páscoa com seus discípulos (Mt 6.31; Lc 22.15). A única ansiedade que pode haver no coração do cristão é a ansiedade pela comunhão com os irmãos. Aqueles discípulos o convidaram a entrar e, quando ele partiu o pão, seus olhos se abriram (vs.30,31).

A Ceia é momento de revelação da pessoa de Jesus Cristo. Portanto, quando você participar dela o faça com a expectativa de ver Jesus. Eu não me refiro a uma “aparição” de olhos, mas de coração – ver Jesus na vida dos irmãos!

A Ceia mostra Cristo, revela nosso coração, mas também fala da nossa identidade nacional. Na primeira páscoa (Êxodo 12), o sangue do cordeiro revelava quem era quem: a casa que tinha o sangue em sua porta pertencia a Deus, mas a casa que não tinha o sangue não fazia parte do povo de Deus. Então, o que nos identifica como povo de Deus é o sangue de Jesus Cristo. A Ceia é a possibilidade de nos aproximarmos uns dos outros pelo sangue, mas também a possibilidade de sermos UM pela carne partida de Jesus. No evangelho de João, capítulo 6, Jesus nos dá muitas promessas e revela o que iria acontecer conosco quando comêssemos da sua carne e bebêssemos do seu sangue.

A Ceia nos faz tirar os olhos das nossas próprias necessidades e focar nas necessidades dos irmãos. Eu lhe garanto que quando você começar a cuidar mais das pessoas o Senhor vai cuidar mais de você, pois esse é o caráter Dele. Paulo disse que Jesus falou que é dando que se recebe (At 20.35). É entregando que recebemos de volta: “dai, e dar-se-vos-á; boa medida, recalcada, sacudida, transbordante, generosamente vos darão” (Lc 6.38). Você dá pouco e Deus lhe dá muito!

Diz a Palavra que, enquanto Jesus tomava a Ceia com os discípulos, “ele levantou-se da ceia, tirou a vestimenta de cima e, tomando uma toalha, cingiu-se com ela. Depois, deitou água na bacia e passou a lavar os pés aos discípulos e a enxugar-lhos com a toalha com que estava cingido” (Jo 13.4,5). Não estou dizendo que devemos instituir o lava-pés em nossa congregação, pois eu creio que isso é algo muito muito maior do que água, sabão e toalha. Creio que o lava-pés fala de cuidarmos da caminhada dos nossos irmãos, estarmos atentos a como eles estão andando. Isso foge completamente ao espírito desse século, quando deixamos de nos interessar pelos outros e nos interessamos apenas pelas coisas que nos dizem respeito.

Lava-pés fala de um profundo comprometimento com as pessoas e também de uma atitude de profunda humildade, de considerar os outros superiores a nós mesmos. É saber como o está o irmão, ir atrás dele e cuidar de seus pés. Muitos estão cansados da sua caminhada, estão com seus pés feridos de tantas lutas e dores que têm passado. Não seria justo, guiados pelo Espírito Santo, procurarmos esses irmãos mesmo que não os conheçamos? Eu lhe garanto que se você começar a olhar com atenção para as pessoas, Deus vai lhe revelar aqueles que necessitam da sua ajuda. Seja discreto, mas seja atento aos aflitos em nosso meio. Alguns têm passado tantas lutas que estão sendo tentados a parar, voltar atrás, desistir de tudo e Deus conta comigo e com você para animar essas pessoas, para estar com elas. Isso é insistir no partir do pão: nos aproximarmos, nos fazermos companheiros das pessoas.

Em Lucas 10, Jesus conta a parábola do homem que foi assaltado, machucado e jogado à beira do caminho. Passaram por ele três pessoas: um sacerdote, um levita e um samaritano. Jesus poderia ter usado outra figura, mas usou justamente um samaritano, povo que os judeus rejeitavam. Esse samaritano fez algo muito maior e melhor do que os judeus. O sacerdote representava a religiosidade e o levita, a estrutura religiosa, mas nenhum deles conseguiu resolver o problema daquele homem, assim como também não conseguem resolver os problemas das pessoas hoje. Apenas homens e mulheres com um coração igual ao de Jesus podem fazê-lo.

A discussão era sobre quem seria “o próximo” (v.29). Jesus, então, lhes ensinou que o próximo não tem a ver com geografia ou distância, mas com o coração. Ele nos manda aproximarmo-nos dos que estão aflitos, lastimados, machucados, roubados, assaltados pela vida; dos que estão perdendo a fé, a esperança, a confiança no Senhor. Assim, deixemos de ser religiosos, ritualísticos e sejamos próximos das pessoas.

Levante seus olhos e deixe Deus lhe mostrar pessoas nas situações acima, irmãos que estão em nosso próprio meio, que chegam às nossas reuniões ‘arrastados’ apenas pelo dever de ir às mesmas ou, então, pela esperança de um milagre do Senhor, pelo sentimento de já ter tentado tudo mas ainda pela esperança de tocar nas vestes de Jesus. Só que essas vestes estão em cada um de nós.

Você já pensou como foi a dinâmica da multiplicação dos pães (Mt 14.13-21)? Eles tinham apenas 5 pães e 2 peixes. Jesus não pegou os pães e simplesmente multiplicou-os diante de todos, mas ele foi partindo-os, entregando-os nas mãos das pessoas e, na medida em que eles repartiam, os pães se multiplicavam. Essa é a nossa experiência: quanto mais damos, mais Deus nos dá. Quando damos, nada nos irá faltar.

Querido irmão(ã): você nasceu para ser como Jesus e como aqueles discípulos que insistiam em repartir o pão, em se doar, se entregar, em cuidar. Se você ainda não tem um coração dadivoso peça ao Senhor para sentir conforme o coração Dele e, com certeza, Ele lhe concederá! Amém!

Transcrição e Edição: Luiz Roberto Cascaldi